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A estrada do perdão,



Talvez abordar este tema é como chegar no ápice de uma montanha que estávamos subindo há tempos e que estávamos vindo de longe. Vamos subindo, passando por todas as colinas, vamos seguindo mesmo cansados, pois não há a possibilidade de voltar e nem desistir. E então continuamos subindo até avistarmos o ápice do pico da montanha. O sorriso vem, o alívio chega e o suor escorre. Chegamos. Avistamos um lugar para sentar, para respirar fundo o ar fresco da montanha que paira no ar e para poder contemplar a vista e o quanto valeu a pena toda a jornada até ali.


Perdão é redenção e compreensão. É quando chegamos no ápice da montanha e sentimos que tudo agora faz sentido e que não há mais nada que perdoar, é quando não há mais espaço para lembrar dos desafios da montanha, pois agora entendemos que precisávamos de todos eles para chegar até ali. É somente quando chegamos ao pico da montanha que entendemos os para quês de todos os desafios. Porém, assim como para chegar no ápice da montanha e entrar em estado de paz e júbilo levou um tempo e foi uma jornada, com o processo de perdoar não é diferente, é um caminho, é um processo, tem as suas fases e leva tempo, mas para quem não olha para trás e continua subindo na missão da sua própria transformação, o ápice da montanha que carrega a compreensão final e a paz irão chegar.


Comecei desta forma, este texto, pois, para mim não há tema mais complexo, poético, desafiador e bonito do que compreendermos que a meta final de tudo é o perdão e a compreensão profunda. Aliás, perdão é exatamente a mesma coisa que compreensão. É quando chegamos ao ponto de olharmos para trás, para os momentos mais dolorosos, para os traumas, para as mentiras, para as traições, para os abusos, para tudo aquilo que já nos fez sofrer e nos fez ficar ressentidos com alguma pessoa e conseguimos compreender que aquilo tudo, seja lá o que for, tinha a sua razão de ter acontecido e o seu propósito no nosso processo de evolução.


Algumas pessoas, neste momento, podem parar e pensar: você está louca, certo? Não. É exatamente isto que eu falei. Tudo tem seu propósito no curso da vida. E a vida sempre sabe o que faz. Aquilo que normalmente nos gerou mais dor, se soubermos ser mestres da nossa própria vida, se torna exatamente o trampolim para começarmos a olhar para dentro e curar nossas feridas antigas. Se tem uma frase que para mim que é como um mantra de vida foi ter compreendido que a vida nunca, jamais, está contra nós. Ela está sempre ao nosso favor mesmo quando não compreendemos isto.



Além disso, as nossas feridas são sempre guias que nos conectam com os nossos maiores dons. Por exemplo, às vezes uma pessoa que sofreu a dor de ter sido abandonado, ou pelo menos de ter se sentido abandonado, por ter essa ferida, acaba por desenvolver o dom de cuidar, proteger e dar atenção interessada às outras pessoas. Assim como, Já vi um caso, de uma mãe que perdeu um filho por uma doença grave e devido a sua dor, faz da sua vida a missão de criar uma instituição para auxiliar outras famílias que passam por esta mesma situação; Também já acompanhei diversos casos de homens que tiveram uma relação distante e com muito sofrimento com seu pai, e fazem da sua meta reparar toda essa história sendo um pai presente para os seus filhos. E Esses são apenas alguns exemplos de casos que transformaram suas feridas como dom.


Porém, o objetivo é que consigamos chegar num ponto de equilíbrio da reparação destas histórias e não chegar ao ponto de irmos para uma outra polaridade extrema, por exemplo fazer uma super utilização do dom, como no caso de homens ou mulheres que querem tanto reparar a dor vinculado com a falta de seus pais, que acabam por se tornar pai superprotetores. Dessa forma, a meta é que utilizemos os nossos dons na medida certa, sabendo quando cuidar e dar aquilo que não receberam, mas também saberem quando não dar e impor limites.


Contudo, o objetivo aqui hoje não é nem me estender no estudo mais complexo de polaridades e coisas do tipo, mas sim plantar esta semente no coração de quem esteja lendo para observar onde moram os nossos ressentimentos mais profundos, quem são as pessoas que ainda não conseguimos perdoar e liberar e por aí vai, pois eu, enquanto ser humano, enquanto psicóloga clínica, que acompanha pessoas em suas jornadas de vida, cada vez fico mais consciente de que, de uma forma ou de outra, as resoluções de todos os conflitos em algum momento vão precisar pela porta do perdão em algum momento.



Quem estamos precisando perdoar?


Desta forma, o exercício de reflexão aqui é pensar em algum ponto difícil da sua história de vida e depois observar o que aconteceu logo depois deste evento, que movimentos aconteceram, o que aconteceu que você não estava esperando, quais novas pessoas possam ter entrado em sua vida, que aprendizados que este fato lhe trouxe, quais as curas que isto trouxe, quais os recursos que você precisou desenvolver, quais valores que você precisou fortalecer e desenvolver? Será que você seria a mesma pessoa de hoje?


Sempre cresci com a frase da minha mãe que dizia “Deus escreve certo, mas às vezes, por linhas tortas”. Hoje, consigo ver a validade destas palavras que significam que no fim sempre está tudo certo mesmo quando achamos que as linhas estão tortas, quando está tudo um caos, porque Deus precisou nos dar esse caminho mais “torto” porque ali estava o nosso tesouro a ser descoberto. Como diz Rumi “é pela ferida que a luz entra”.


Alguns podem me perguntar, como você tem certeza disso do que você está escrevendo? Olha eu não tenho, aliás ninguém tem, por mais que tudo o que está escrito aqui também é embasado com muito estudo. Porém, muito além disso, para se viver através desta compreensão é necessário ter simplesmente algo: fé. E uma coisa eu tenho certeza, se você está lendo isto agora, é porque você busca de uma forma ou de outra sentir paz. E a gente só consegue de fato alcançar a paz quando a gente para de querer ter tanta razão, decide subir a montanha mesmo com os desafios, porque a gente sabe que precisamos por ali passar. É quando a gente para de sentir tanta injustiça e nos colocamos como protagonistas da nossa própria vida, é quando a gente decide, apesar de qualquer circunstância criar a nossa realidade. Isto é fé. É rendição a vida mas perseverança naquilo que desejamos. É se entregar e aceitar o que não podemos mudar, como as grandes colinas da montanha, mas perseverança que vamos respirar o ar fresco em breve, sim ou sim.


E então, como está a sua fé?


Com amor, marcela

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1 Comment


Perfeito Ma!! Muita sensibilidade nessas palavras...faz todo sentido!! Você é muito especial...feliz de mim por tê-la...Gratidão por este texto!! Bjooooo.

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