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A falta de Reconhecimento e a desconexão com o meu Eu

Atualizado: 16 de mar.




Todos nós, de um jeito ou de outro, temos falhas no nosso desenvolvimento. Nossos pais, por melhores que possam ter sido em nossa infância e adolescência, geraram marcas em nós. Marcas de falta de reconhecimento, de falta de escuta e acolhimento, marcas por excesso de rigidez, marcas por abandono, marcas por excesso de proteção, marcas das mais variadas possíveis. Isto, pois, nossos pais, são seres humanos exatamente iguais a nós, também possuem as suas falhas no seu desenvolvimento próprio e por isso projetam, sentem raiva, frustrações, colocam expectativas em seus filhos ou muitas vezes não conseguem dar o que não receberam. Eles são simplesmente humanos, assim como nós, e além de serem pais, são sujeitos repletos de subjetividade por uma vida recheada de marcas e histórias.


Das mais variadas marcas e falhas que podemos ter ao longo de nossa história, hoje quero me deter em uma que acomete muito de nós e deixa lacunas e espaços vazios que geram muito sofrimento: a falta do reconhecimento. E o que eu quero dizer com falta de reconhecimento? Quando o que eu sou e o que eu penso que eu sou estão em desacordo.

A falta de reconhecimento pode se derivar através de muitas situações, por exemplo, quando temos uma mãe deprimida ou ausente que não consegue nos dar afeto o suficiente e olhar para o seu filho e fazer este se sentir apreciado, amado e pertencido. Quando temos uma mãe ou um pai com um perfil mais ansioso/rígido e desde pequeno não permite que seus filhos expressem suas características próprias e os fazem correção constante projetando uma idealização do que seria um filho ideal para eles, e assim gerando a informação inconsciente no seu filho de que ele não é bom o suficiente, que é inadequado(a), que ele(a) não está sendo ou fazendo o que deveria ser e fazer. Quando acontece uma gravidez acidental e essa mãe tem dificuldade de aceitar e reconhecer este filho de maneira satisfatória quando ele nasce. Entre outros muitos exemplos, a falta de reconhecimento pode vir tanto pelo excesso de algum comportamento quanto pela falta, por exemplo pelo excesso de rigidez e exigência de perfeição e pela falta de olhar, afeto, acolhimento e presença.


Por muitas razões um pai ou uma mãe podem ter dificuldade de reconhecer um filho, e não estou aqui falando somente sobre não reconhecer no sentindo literal da palavra, pois existem muitos pais presentes com os seus filhos e que não lhes deixam faltar nada, mas deixam escapar algo tão sutil de ser feito com seus filhos que é um olhar genuíno e profundo para que a criança possa aos poucos compreendendo quem ela é através deste de olhar de reconhecimento. O que precisa ficar claro é: no início das nossas vidas os pais emprestam as suas visões sobre o mundo e servem de espelhos aos filhos para que estes compreendam quem são e o que é e como funciona o mundo. E, desta forma, se esse olhar dos pais que foi emprestado neste momento da infância, não for satisfatório, esse sujeito fica com uma lacuna constante em relação a sua própria imagem, ao seu próprio senso de valor. O sujeito pode ter dificuldade de se reconhecer e se apropriar de sua própria vida e decisões, e além disso ficar refém do olhar do outro e do reconhecimento alheio para conseguir se sentir com valor.


Uma pessoa que possui essa crença da falta do reconhecimento, que apresenta essa sombra de estar sempre buscando fora este olhar para se sentir valorizado e enxergado irá apresentar muita dificuldade de possuir uma boa auto-estima e, desta forma, se sentir capaz para tomar certas decisões, para se sentir merecedor de um relacionamento saudável muitas vezes, para se sentir capaz de ter uma boa carreira profissional, para poder ser coerente em geral, pois estará sempre preocupado com o que os outros irão pensar, para colocar limites e permitir desagradar certas pessoas quando ele precisa se priorizar, entre outras consequências que podem acontecer por apresentar um senso de valor baixo por essa dificuldade de não conseguir se reconhecer.


Além disso, tudo que envolve a auto-imagem fica prejudicado e pode existir uma tendência a se depreciar, a ter uma imagem distorcida de si, de se sentir defeituoso. Os conflitos vinculados com a imagem física, com a distorção da imagem física, transtornos alimentares, perfeccionismo em relação ao corpo também vem deste lugar da dificuldade de se reconhecer, ou seja existe um abismo entre a imagem que eu tenho de mim e a imagem que de fato eu tenho. Outras consequências desta crença é ter sintomas ansiosos constantes e é muito comum ter ansiedade social. Isto, pois, é tão ansiogênico para a pessoa ter que lidar com a possibilidade de não ser reconhecida por alguma pessoa ou por um grupo específico de pessoas que isto acaba por gerar uma tensão constante por essa busca da validação que é, na verdade, insaciável.


Porém, entretanto, todavia, eu tenho uma boa e uma má notícia para você que está lendo este texto. A má é que este ciclo nunca irá acabar se você continuar buscando o reconhecimento fora e mesmo que você tenha toda a validação externa do mundo, se esforce e receba o reconhecimento alheio, vai ter algo dentro de você que diz: ainda não está bom o suficiente. E a boa notícia é: este ciclo tem como parar, mas a solução para tudo isso não está em nenhum outro lugar fora de você mesmo(a). Você vai ter que aprender a se dar aquilo que te faltou: reconhecimento, olhar e acolhimento para conseguir de fato se enxergar.


Existe uma criança dentro de cada pessoa que sofre desta situação que pede olhar, reconhecimento e acolhimento. Olhamos para a nossa história para nos compreendermos melhor mas não para culpar ninguém ou dizer que algo deveria ter sido diferente. O fato é: precisamos aprender a nos tornar os adultos saudáveis que possam cuidar das nossas próprias crianças feridas. E como eu faço isso, você pode estar pensando em me perguntar, e é um questionamento que eu escuto todos os dias dos meus pacientes: e agora como eu faço?


Você não precisa saber como. Você precisa sentir dentro do seu coração o que estamos conversando e fazer um comprometimento diário de estar disposto a começar a fazer diferente. Você pode sim fazer através de visualizações, meditações ou escrever para cultivar esse novo diálogo com a sua criança e acolher ela, dizer que agora quem vai cuidar dela é você mesmo(a). E isto é o processo de aprender a ser sua própria mãe e aprender a ser seu próprio pai.


Você irá precisar aprender a trocar as suas falas internas que te depreciam e te colocam para baixo por falas mais compassivas e amorosas. Um exercício que eu gosto muito é o exercício do espelho. Poder se olhar de maneira fixa no seu espelho, olhando bem para o fundo dos seus olhos, bem ao fundo de sua pupila e dizer com amor e sentindo o que está falando: “Eu agora te reconheço meu amor. Eu estou aqui para você. Você tem feito um bom trabalho. Está tudo bem. Eu te reconheço. Eu te amo”. Fazer esse exercício quantas vezes for necessário até que fique aos poucos mais natural. Para pessoas que têm dificuldade com auto-imagem este exercício pode ser um pouco desconfortável, mas é muito necessário tolerar e ir aos poucos dando e se preenchendo deste olhar de reconhecimento. Se olhar de corpo todo também é fundamental nestes casos, para que aos poucos aquela desconexão com a imagem possa ir diminuindo. Se olhe, se enxergue, se aproprie da pessoa que você é e da história que você tem quando estiver vendo a sua imagem refletida no espelho, o máximo que você puder.


Outro umbral que é necessário cruzar aqui quando estamos neste processo de se reconhecer é: você pode projetar pessoas não te validando ou perceber que você está desagradando alguém e o desafio aqui é permitir que esse desconforto percorra o seu corpo até que ele passe e comece a repetir para si mesmo(a): “está tudo bem não ter recebido o reconhecimento que eu desejava. O importante é que isto que eu estou fazendo (pense no que você fez que não gerou o reconhecimento que você gostaria) faça sentido para mim e que somente eu possa me reconhecer de verdade. Esse é o meu portal de transformacao”.


E lembre: seja gentil com o seu processo. Cada passo que você der para ir se reconhecendo e se apropriando de si mesmo(a) estará asfaltando o seu caminho para os novos percursos. Todo passo importa e vai solidificando a sua segurança interna e o seu valor próprio. Para finalizar eu gostaria de lembrar algo muito importante que é: não existe algo mais atraente, sexy e magnético que uma pessoa confiante em si mesma e que independente de suas imperfeições não precisa lutar para mostrar o seu valor. Essa pessoa sabe quem é, e isso é tudo que basta para poder atrair tudo o que se quer nessa vida. Eu gosto de dizer que a vida é uma grande escola, estamos todos aqui aprendendo sobre as mais diversas coisas, mas uma das lições mais fundamentais e essenciais que viemos aqui fazer é aprender de fato a se amar.

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