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Medo do Abandono, como posso transformar?

Atualizado: 15 de abr. de 2023



Como foi dito no último texto do blog, ter relações significativas em nossas vidas são vitais e fazem parte do nosso desenvolvimento humano e biológico; além de todos os outros benefícios já citados para a nossa qualidade de vida e bem-estar. Contudo, até que ponto mantemos relações, que às vezes podem ser bastante prejudiciais, ou ultrapassamos limites nossos simplesmente pelo medo de estar só ou pelo medo de se sentir abandonado pela a pessoa na qual estamos nos relacionando?


Primeiro ponto que eu gostaria de abordar é: não é sobre o fato em si que sofremos, mas sobre a nossa interpretação sobre o fato, visto que podemos literalmente viver um término de um relacionamento no qual não gostaríamos de ter terminado, por exemplo, e enxergar isto de uma forma que não gere a sensação do abandono. Então, dessa forma, o que é importante ser compreendido com isto é: temos medo de sentir a sensação do abandono, e não o abandono em si, visto que o abandono em si pode ter sempre muitas formas de ser compreendido.


Na caverna que você tem medo de entrar, está o tesouro que você procura. Essa frase foi extraída do livro “O Herói de Mil Faces”, escrito pelo americano Joseph Campbell em 1949, e este livro condensa as etapas enfrentadas por todos os tipos de heróis da vida real ou artística, defendendo a tese de que todo ato de heroísmo inicia com a superação de si mesmo, passa pelo enfrentamento dos seus maiores medos. Ou seja, se você tem medo de algo, é justamente para lá que você precisa ir para poder transformá-lo.


A reflexão que proponho aqui é: não significa que você vai ter que viver um possível abandono para poder curar este medo, visto que o pressuposto acima simplesmente quer trazer a ideia de que de uma forma ou de outra a vida irá fazer você entrar em contato com situações que podem te provocar uma sensação de abandono, para que você possa lá de dentro do redemoinho emocional, escolher ver as coisas de maneira diferente. Costumo dizer nas minhas sessões de terapia, que é de dentro do olho do furacão que aprendemos a sair dele.


Por exemplo, uma pessoa pode ter a sensação de abandono quando o namorado não responde às suas mensagens na hora e do jeito que ela gostaria; ou outro exemplo, uma amiga que tem a sensação de abandono quando duas grandes amigas dela saíram para jantar e não a convidaram. Esses são exemplos de situações que são passíveis de sentir uma sensação de abandono, se a pessoa já tem uma sombra vinculado com isso, mas quando tomamos consciência que isto é sobre nós mesmos e precisamos transformar algo, essas situações se tornam oportunidades para treinarmos o nosso olhar e dar uma resposta diferente da habitual.



Além disso, é fundamental, quando essas situações chegam, que comecemos a nos auto-indagar com perguntas como: Do que eu tenho medo? O que significa me sentir abandonado(a)? O que significa me sentir sozinho(a)? E escreva todos os pensamentos que vem a sua mente, esses pensamentos vão ser o porta voz de suas crenças sobre este assunto.


Agora vamos adiante, pois precisamos cruzar um umbral aqui. Aliás, você sabe o que é um umbral? É conhecido popularmente como um local feio, escuro e cheio de desafios, mas que faz parte do caminho até chegarmos nas novas realidades que queremos viver, em um lugar bonito, cheio de novas possibilidades, é um lugar talvez que você nunca esteve antes. E o umbral que precisamos passar aqui é: você precisa fazer as pazes com a ideia de ficar só ou ficar solteiro(a)/separado(a) novamente se fosse o caso, e não enxergar isso através de um olhar catastrófico, pensando que você não iria dar conta.


Ouço muito na clínica, relatos de pessoas que literalmente repelem a ideia de estar novamente solteiros, visto que percebem este estado civil com alguma conotação negativa, sempre atrelando estar soleiro(a) ou separado(a) como estar de novo sozinhos(as). Contudo, o “estar solteiro” é apenas um estado neutro, e que podem ter muitas interpretações sobre isso, assim como ganhos e custos, como qualquer outro estado civil. Algumas frases muito ouvidas na clínica são: mas e agora o que eu vou fazer sem ele(a)? O que as pessoas vão pensar? Eu já tenho mais de 30 anos e como vou estar sozinha(o)? E os meus filhos, como eles iriam ficar?


Carl Gustav Jung, renomável psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, foi uma das primeiras pessoas a falar da importância de integrarmos todas as polaridades dentro de nós. E o que significa integrar as polaridades? Não rejeitar nenhum estado, nenhum dos lados. No caso do assunto em questão seria: ver a beleza e os desafios de tanto estar em um relacionamento e quanto de estar solteiro(a). Vivendo o melhor de cada estado, se reinventando e escolhendo ver as coisas de maneira diferente.


Por exemplo, no caso de uma jovem mulher que está sempre buscando estar em um relacionamento, ela demonstra com esse desassossego uma dificuldade de estar só, ou seja, uma dificuldade de estar com ela mesma. Esta mesma mulher quando encontra alguém e inicia um relacionamento, provavelmente irá transformar o medo de estar só, pelo medo deste relacionamento, por algum motivo, terminar e ela se sentir abandonada. Desta forma, podemos dizer que o medo de ficar só e o medo do abandono são dois lados da mesma moeda.


Portanto, um dos maiores recursos que precisamos falar aqui hoje para quem sofre de medo de ficar só/medo do abandono é: aprenda a estar consigo e faça um compromisso de vida que não importa o que aconteça consigo, você nunca irá se abandonar! Aliás no fim, compreendemos que ninguém pode nos abandonar se aprendemos a estar bem de verdade com a gente mesmo. Só nós mesmos podemos nos abandonar.


Outro ponto fundamental é: você precisa encontrar a raiz do seu medo de se sentir sozinho e/ou abandonado, visto que se você fica projetando situações nas quais sente essa sensação de possível abandono e sente quase um pavor em ficar só, é porque com certeza algo se passou em sua vida que lhe gerou essas marcas. Devemos olhar para o nosso passado não para ficar preso a ele, mas simplesmente para dar um novo significado para as experiências que já vivemos e foram dolorosas, para sermos livres para vivenciar a nossa vida no presente sem estar tão preso ao que já passou. Desta forma, se você, que está lendo isso, se identifica com estes sofrimentos, eu digo com toda a certeza: procure ajuda de algum profissional que possa lhe ajudar a encontrar essas raízes para que elas possam ser transformadas.


Outro ponto importante, e também com este olhar de “procure ajuda se for necessário para compreender melhor”, é o fato de que não somos seres separados daqueles que vieram antes de nós, e, muitas vezes, carregamos uma sensação de abandono devido a um trauma que sua mãe, seu pai ou seus avós já vivenciaram. Já falei sobre este assunto no texto do blog “para que estou repetindo isso mais uma vez na minha vida”, mas relembrando: não vivenciamos coisas não curadas de algum antepassado pois isto é um karma, mas sim porque os conflitos não curados precisam de uma solução, e eles vão sendo passados muitas vezes de geração em geração, até que alguém possa dar a compreensão e o perdão necessário sobre aquele assunto. Essa solução simplesmente é ver algo que gerou muita dor, trauma e sofrimento através de um novo olhar.


Para integrar alguns pontos até aqui, é fundamental que você procure fazer consigo mesmo aquilo que você deseja que o outro lhe dê. Se você quer transformar essas sensações e esses medos, você precisa ser a sua principal prioridade e isso deve ser inegociável. Você precisa conhecer o que é de fato importante para você, o que lhe faz bem, quais são seus valores e, desta forma, saber quais são os seus limites em qualquer relacionamento e não abrir mão disso. Claro que é muito gostoso (eu amo também) receber carinho, atenção, ser cuidada, mas para você receber isso de maneira funcional, você primeiro precisa se preencher de si mesmo(a). Não tem outra saída, meus amores!


Desta forma, para finalizar, crie uma lista de coisas que você pode fazer quando se sentir novamente com a sensação de abandono. Ligue para algum amigo querido, saia para fazer algum esporte que você goste, sinta o seu próprio cheirinho e se de um abraço, vá assistir a algum pôr-do-sol ou esteja conectado com a natureza, faça uma playlist no seu spotify com todas as músicas que tem a ver com a sua história de vida e que lhe geram emoções positivas, tome um banho quentinho, coma algo que você gosta, enfim liste tudo o que você pode fazer por você mesmo(a) e que não depende de ninguém. Se você quer ter de verdade um relacionamento saudável com alguém e poder fazer tudo desta lista acompanhado, porque sim é muito gostoso, primeiro aprenda a fazer isso sozinho(a).


Outro ponto fundamental para ser bem integrado antes de finalizarmos é a ideia que foi discorrida acima da importância de ficar em paz independente do seu estado civil, sem rejeitar a polaridade na qual você está vivendo no momento. Se você está solteiro(a) não coloque a solução de seus problemas em encontrar alguém e viva bem essa polaridade, tirando o melhor proveito desta situação e sabendo que, invariavelmente, a vida é impermanência e, quando você menos esperar, você pode estar em um relacionamento. Contudo, se você não viver inteiramente a solteirice, não ira viver inteiramente o estar em um relacionamento. Ou seja, viver com aceitação e sem resistência o que você estiver vivendo neste momento.


Para finalizarmos, gosto de pensar na ideia de que mais do que querer curar algo que é bem desafiador na nossa vida, devemos adotar a postura de querer cuidar daquilo que precisa da nossa atenção. Compreender que a cura que almejamos é um lugar de cuidado a ser desenvolvido. Ou seja, é um convite para estarmos atentos a quando essas situações e emoções chegarem, bem como recursos para lidar, tanto a nível de percepção, quanto a nível de comportamentos. Então que possamos todos cuidarmos de nossas feridas e tratar elas da melhor maneira possível, inclusive eu mesma, já que tenho muitas marcas em relação ao abandono, e escolho todos os dias cuidar de mim e transformar as minhas feridas em aprendizados.

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2 comentarios


Que lindo! Perfeito! Era o que eu precisava ler! Obrigada por isso minha pintinha!

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Eliane Mattos
Eliane Mattos
12 abr 2023

Que texto esclarecedor! Uma verdadeira sessão de terapia! Eu amei! Obrigada Marcela! ❤️

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