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Onde mora o seu valor?

Uma carta para você III,







Meus queridos, nesse clima de início de semana, decidi escrever esta carta para você como uma forma de deixar um recado em seu coração, pois sei que este é um tema que atravessa todos nós, em diferentes momentos e fases de vidas, já que todos nós, invariavelmente, temos algumas marcas e falhas ao longo do nosso desenvolvimento e que fazem a gente questionar o nosso senso de valor e se somos mesmo merecedores e dignos de sermos felizes e amados.


Então, que tal começarmos a nossa semana falando de maneira diferente com a gente mesmo?


Que tal nos permitirmos viver na essência do nosso ser sem colocar tantos rótulos de como deveríamos ser para sermos respeitados e amados?


Escolhi esta foto intencionalmente hoje pois ela demonstra para mim esse lugar de leveza, de brincadeira e descontração (e que eu preciso também me relembrar sempre para retornar).


Além disso, este é um assunto que aparece muito na prática clínica, em pelo menos em algum momento, de todos os processos terapêuticos, pois estamos aqui falando sobre auto-estima e senso de valor e todos nós passamos por fases que questionamos isso de alguma maneira. Dessa forma, nota-se em um processo terapêutico que costumamos muito, querendo ou não, apoiar o nosso senso de valor em partes, papeis e funções que somos e ocupamos na nossa vida.


Por exemplo:


Se eu estou em um relacionamento, eu me sinto com valor.

Se meu relacionamento está indo como eu gostaria que tivesse indo, eu me sinto bem e com valor.

Se meus filhos estão fazendo aquilo que eu acho que eles deveriam estar fazendo, eu me sinto bem.

Se eu estou tenho reconhecimento no meu trabalho, eu me sinto com valor

Se eu estou tendo reconhecimento financeiro, eu me sinto com valor.

Se eu estou bem com o meu corpo, eu me sinto merecedora de amor e valorizada.

Se eu estou bem com a minha aparência em geral, eu me sinto com valor.


Percebe que essas são apenas algumas das muitas condições que colocamos na nossa vida para nos sentirmos bem, merecedores de amor, reconhecidos(as) e com valor. 



Não que essas frases sejam totalmente inválidas, pois seria hipocrisia dizer que não colocamos invariavelmente um pouco do nosso senso de valor e bem-estar quando as coisas estão indo bem na nossa vida. Contudo, o que acontece com o nosso valor e a nossa auto-estima nos dias que não estamos bem? Nos dias que não estamos ocupando aquela função que nos sentimos reconhecidas de alguma forma? Se por acaso estamos em crise no nosso relacionamento? Se por acaso nos vemos tendo que recomeçar algo? Se rompemos um relacionamento? Se não estamos tendo o reconhecimento que gostaríamos no trabalho? Se estamos enfrentando uma crise financeira? Se preciso ser mãe e redirecionar a energia que colocava no meu trabalho no meu filho?


Se quando isso lhe acontece, você se sente a pior pessoa do mundo, tem às vezes vontade de sumir, se sente com um sentimento de fracasso ou desvalia, com vontade de passar um dia inteiro sem fazer nada, vendo netflix ou rolando no instagram e acreditando que a vida de todas as pessoas do mundo é perfeita menos a sua, pode acreditar: Você não está sozinho(a), mas posso te dizer também que você está apoiando muito do seu senso de valor em apenas uma ou algumas coisas e se esquecendo de outras tão importantes quanto.


Além disso, é natural que colocamos um pouco do nosso senso de valor nesses papeis e funções, e quando por exemplo chega uma nova fase de vida, uma crise, uma mudança, que nos faz “perder” aquilo que colocamos o nosso valor, podemos sentir um pouco, viver um certo luto se for necessário de acordo com a perda, mas o saudável seria ir aos poucos nos redirecionando e nos relembrando que temos outras partes de quem somos que nos sustentam em quem somos e que conseguimos sentir que somos dignos de sermos amados e valorizados.  Porém, como já referido, o problema (e acontece muito) é quando colocamos todo o nosso valor em uma parte só. Por isso, é de extrema importância que possamos reconhecer nosso senso de valor em tudo que nos contempla, não somente na nossa profissão, no nosso relacionamento, em quanto ganhamos, em qual posição do nosso trabalho estamos, em quantas viagens por ano fazemos, etc. Nosso senso de valor está nas coisas mais sutis da vida, nas situações e nuances que contemplam todo o nosso ser, que englobam tudo o que somos.


E um lembrete sobre perdas que vivemos ao longo do nosso caminho referentes a coisas e situações que colocamos muitas expectativas e muito do nosso senso de valor:


Meus amores, nunca se esqueçam que a natureza da vida se chama mudança. Novas fases sempre chegam, novos trabalhos, novos amores, novos corpos, novos tudo, e para isso chegar, invariavelmente passamos por momentos de transição e perdas. O problema é ficarmos fixados em achar que aquilo que “perdemos” era onde morava o nosso bem-estar e o nosso valor. Aliás, a gente nem tem ideia o quanto as coisas mais magníficas da vida acontecem quando a gente menos espera, elas chegam de surpresa e normalmente depois de situações que deram “errado”. 


Além disso, gostaria muito que você pudesse lembrar hoje que:


Seu valor não está somente naquilo que você faz.

Seu valor está em quem você é.

No que você sente dentro de si.

No que você sente quando vê um pôr do sol, contempla a natureza ou vê uma criança sorrir.

Está em conseguir contemplar um momento de comer um bolo e um chá com gosto de casa de vó.

Em conseguir contemplar o cheiro da terra molhada quando chove.

Está em como você lida e cuida das pequenas coisas do seu dia a dia.

No riso solto que você dá quando está com amigos queridos.

Está em quanto você se cuida, mesmo em dias difíceis.

E em quanto você se cuida, quando está se sentindo bem também.

Em o quanto você se deixa tocar e ser tocada pelo o que acontece no mundo lá fora.

Está na sua sensibilidade em ver o valor nas pequenas coisas.

Está em se permitir errar e não ter medo de recomeçar.

Está em saber desacelerar e viver momentos de calma.

Está em conseguir não viver sempre na pressa do amanhã e conseguir de verdade viver um momento de cada vez.

Em ter tempo e paciência para escutar e ajudar alguma pessoa que precisa.

Ah meu amor, seu valor está em tantas coisas.

Está na maneira como você ri.

Está em conseguir contemplar momentos com você mesmo em sua própria companhia.

Está na  maneira como você faz as coisas.

Está, de verdade, meus amores, nas pequenas coisas.

Não busque reconhecimento do seu valor somente naquilo que você faz, na sua profissão ou no quanto você se sente reconhecido pelos outros.

Você só vai se machucar fazendo isso e em algum momento irá compreender que, seu valor, de verdade, está simplesmente em existir e ser do jeitinho que você é.


Esse breve texto é somente para você relembrar coisas simples. Coisas simples que às vezes esquecemos. E mais do que isso, para que você possa firmar um compromisso consigo mesmo(a) em dizer todos os dias em que você  estiver se questionando e estiver se sentindo mais para baixo (repita sempre seu nome de maneira carinhosa na terceira pessoa quando for falar isso para si):


Vou usar o exemplo com o meu nome:


“Querida Marcela, lembra que isso também vai passar. Lembra das outras coisas que fazem você ser quem você é, lembra das outras coisas que estão pautadas o seu valor. Lembra que as coisas se ajeitam como o tempo meu amor, mas o mais importante querida Marcela, seu valor não está nisso que você está se questionando, seu valor está em quem você é”.


E para finalizar e dar um tom poético na sua semana, compartilho um poema que gosto muito do Fernando Pessoa


Para além da curva da estrada

Talvez haja um poço, e talvez um castelo,

E talvez apenas a continuação da estrada.

Não sei, nem pergunto.

Enquanto vou na estrada antes da curva

Só olho para a estrada antes da curva,

Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.

De nada me serviria estar olhando para outro lado

E para aquilo que não vejo.

Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.

Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.

Se há alguém para além da curva da estrada,

Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.

Essa é que é a estrada para eles.

Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.

Por ora só sabemos que lá não estamos.

Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva

Há a estrada sem curva nenhuma.



Com muito amor, 

Marcela.

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2 Comments


Linda reflexão 😘

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Obrigada meu querido!!!

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